Existem temas que vem sendo tratado de forma ideológica e preconceituosa no Brasil, como o caso recente de notícias sobre uma ação pública promovida pelo MPF, discriminatório (Ministério Público Federal) com a pretensão de retirar do “Dicionário Houaiss”, o verbete “cigano”, por considerar pejorativo o significado descrito no aludido dicionário. Quem faz um dicionário, não é um sujeito qualquer. O dicionário nada mais é que uma “listagem por ordem alfabética de palavras e expressões de uma língua de determinado grupo social”. Não é o dicionário invenção de termos e dizeres, é a expressão das palavras retiradas do meio de um povo, pelo uso, pelo tempo, por décadas. Traz na maioria das vezes, o significado retirado da linguagem popular, dos costumes, dos lugares, enfim, retrata a linguagem do povo, que consolida a cultura. A título de argumentação apenas, se palavra “cigano” no Dicionário Hoauiss traz constrangimento ao grupo social, muitas das palavras do dito popular que utilizamos no dia-a-dia, também poderão ser consideradas ofensivas. Hoje em dia, por estarmos numa época tecnológica, não se usa mais a palavra como “chofer”, que era motorista de automóvel, profissional usava até uniformes. “Charreteiro”, aquele cidadão que conduzia charrete (veículo de duas rodas, puxado por cavalo, utilizado por duas ou três pessoas). “Bóia-fria”, trabalhador rural, que levava seu alimento em marmita, no local do trabalho fazia suas refeições sem qualquer aquecimento. ”Mascate” vendedor de objetos de “porta em porta”. Infinidades de palavras, fazem parte da nossa cultura que não se pode apagar do dicionário e nem da memória do povo. Temos muitas situações constatadas, inclusive no comércio, como “Oficina do Japonês”, “Bar do Baiano”, “Padaria do Portuga”, “Loja China”, “Loja do Turco”, “Casa Catarinense” “Casa Gaúcha”, enfim, nomes que fazem parte da nossa tradição cultural. Não se pode sufocar a manifestação popular; continuar a direcionar a cultura, como retirar palavras do vernáculo pela força, como imposição legal. Algumas palavras caem em desuso, como seria o caso de cigano, todavia, o dicionário é um repositório, um patrimônio cultural de ampla dimensão abrigando “palavras que passaram por gerações”. O Brasil é reconhecidamente no contexto internacional, um país acolhedor de imigrantes, inclusive de ciganos. Graças a colaboração de destes povos, com trabalho, empenho e dedicação, participaram do desenvolvimento do Brasil. Muitos imigrantes fizeram desta nação sua terra natal, constituindo famílias, patrimônio e perpetuando gerações, como é o caso do povo cigano. Em que pese às razões de cor, raça e etnia, não pode se pode apagar o passado de uma nação, levar a óbito, como se fosse natural, ao contrário, temos que manter vivo e aceso todas as vertentes culturais de uma nação e procurar sempre resgatar, jamais promover por qualquer meio e procedimento seu aniquilamento. Como escreveu Lya Luft (Revista Veja de 14/3/2012, p. 22) “... vamos deletar as palavras que nos incomodam, os costumes que nos irritam, as pessoas que nos atrapalham e, quem sabe, iniciar uma campanha de queima de livros. De autores, seria um segundo passo”.
Publicada no Jornal "Folha Regional de Cianorte " edição do dia 25 de março de 2012.